
Nos últimos anos, o mundo do vinho tem testemunhado um movimento curioso: produtores tradicionais da Europa, especialmente da França, voltando seus olhos para regiões até então pouco associadas à viticultura de alto nível. Um desses lugares é o Japão. Embora o país não seja novo na produção de vinhos, o interesse de grandes nomes internacionais chama atenção e aponta para uma nova fase no desenvolvimento da enologia japonesa.

Um caso emblemático é o do francês Étienne de Montille. Ele comanda um prestigiado domaine na Côte d’Or, no coração da Borgonha, região considerada por muitos como o berço dos melhores Pinot Noir e Chardonnay do mundo. Ainda assim, decidiu se lançar em um projeto totalmente diferente: fincar raízes em Hokkaido, a ilha mais ao norte do Japão, e começar um novo capítulo ali. Em 2017, ele iniciou o plantio de vinhas japonesas, apostando novamente nas castas que tão bem conhece, Pinot Noir e Chardonnay. Depois de anos de paciência e adaptação, realizou sua primeira colheita em 2023.
A escolha de Hokkaido como local para seu novo empreendimento não foi por acaso. A região tem ganhado visibilidade no Japão por seu clima mais frio, que lembra em alguns aspectos o clima continental da Europa Central, ainda que com desafios próprios. O país como um todo apresenta condições bastante distintas daquelas encontradas nas tradicionais regiões vinícolas da Europa. O Japão enfrenta um clima úmido, com monções que se estendem de junho a outubro, o que favorece o surgimento de doenças fúngicas. Os invernos podem ser bastante rigorosos, com temperaturas negativas e ocorrência de geadas. Além disso, a brotação das videiras acontece de forma tardia, e a colheita precisa ser feita antes das primeiras nevascas do outono, o que exige atenção redobrada e planejamento criterioso por parte dos produtores.
Apesar das adversidades, a viticultura japonesa tem crescido de forma constante e interessante. Em apenas uma década, o número de produtores de vinho praticamente dobrou no país, passando de cerca de 250 para aproximadamente 500. Boa parte dessas vinícolas são pequenas, familiares, com produção limitada e voltadas para o mercado interno. Muitas delas produzem apenas alguns milhares de caixas por ano, o que reforça o caráter artesanal da viticultura local. As regiões mais expressivas são Yamanashi, que concentra uma parte significativa da produção nacional, seguida por Nagano e, mais recentemente, Hokkaido.

A escolha das variedades também reflete a adaptação ao terroir japonês. Entre as uvas locais, destaca-se a Koshu, uma casta branca de pele rosada, tradicionalmente cultivada no Japão e considerada ideal para acompanhar pratos típicos da culinária local, como o sashimi. Outro exemplo é a Muscat Bailey A, uma variedade tinta híbrida, criada no próprio Japão, que costuma apresentar aromas de frutas vermelhas, especialmente morango. Os híbridos, aliás, são bastante comuns nas vinhas japonesas, justamente por apresentarem maior resistência às condições adversas do clima úmido e frio.
O projeto de Étienne de Montille em Hakodate, ao sul de Hokkaido, é uma aposta de longo prazo. Em entrevistas recentes, ele comentou que sua intenção é produzir vinhos elegantes, com aromas refinados e uma característica que lhe chamou muito a atenção: uma leve presença de umami, a famosa quinta dimensão do sabor, muito valorizada na culinária asiática. Segundo ele, essa nota é algo que nunca havia sentido em vinhos produzidos em outros terroirs. Hoje, sua vinícola já está operando plenamente, e os primeiros exemplares de Pinot Noir da região vêm sendo recebidos com entusiasmo por quem os prova.
O movimento de produtores estrangeiros como de Montille para o Japão não deve ser visto apenas como uma curiosidade, mas como um indicativo real de transformação. O mundo do vinho está cada vez mais aberto a colaborações internacionais e a novas leituras do conceito de terroir. O Japão, com sua longa tradição agrícola, sua precisão técnica e seu profundo respeito pela natureza, parece estar pronto para oferecer algo único. Hokkaido, em particular, surge como um território promissor, ainda em desenvolvimento, mas com grande potencial para ganhar destaque no cenário global da enologia.
A presença de um produtor da Borgonha em solo japonês é simbólica. Mostra que a inovação e a tradição não são opostas, e que até os profissionais mais experientes estão dispostos a aprender, experimentar e reinventar. Se o futuro do vinho está em explorar novos territórios e novas formas de expressão, então o Japão tem tudo para ser uma das regiões mais interessantes a se observar nos próximos anos.
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