Novo movimento italiano: vinhos ampliam presença no Brasil

Parque industrial da vinícola Castellani, na Toscana, onde tradição e inovação se encontram. A empresa amplia investimentos e aposta no Brasil como mercado estratégico para a exportação de vinhos.

Transformações geopolíticas e novos acordos comerciais vêm redesenhando o mapa global do vinho e aproximando, de forma estratégica, produtores italianos do mercado brasileiro. Ao mesmo tempo, vinícolas nacionais investem no cultivo de castas emblemáticas da Itália, criando rótulos com identidade própria, mas inspirados no DNA italiano.

Na região da Toscana, o parque industrial da Vinícola Castellani simboliza essa combinação entre tradição e inovação. Fundada em 1903, a empresa amplia investimentos e consolida o Brasil como mercado prioritário para suas exportações.

A Itália, um dos países mais tradicionais da vitivinicultura mundial, enfrenta um cenário internacional desafiador. A guerra entre Ucrânia e Rússia afetou cadeias logísticas e o consumo europeu. O Brexit encareceu operações comerciais com o Reino Unido. A China reduziu significativamente as compras de vinhos importados, enquanto os Estados Unidos adotaram sobretaxações sobre produtos europeus. Diante desse contexto, produtores italianos passaram a buscar novos mercados fora da Europa.

Na América do Sul, o Brasil desponta como destino estratégico. Além de reunir um dos maiores públicos consumidores de vinho da região, o país pode se beneficiar do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, firmado recentemente. A expectativa é que a redução de tarifas, estimada em ao menos 27%, amplie a competitividade dos rótulos europeus, especialmente italianos, no mercado brasileiro.

“O Brasil já possui consumo expressivo de vinhos europeus, principalmente portugueses, italianos e franceses. Com o acordo, a tendência é de maior diversidade de produtos e preços mais competitivos”, afirma Renan Werneck, especialista em comércio exterior.

Marcelo Vargas, especialista em vinhos com ênfase em análise sensorial e comportamento do consumidor

Para Marcelo Vargas, especialista em vinhos com ênfase em análise sensorial e comportamento do consumidor, o movimento tem origem geopolítica, mas impacto direto na taça. “Quando mercados tradicionais se tornam mais caros ou instáveis, os produtores precisam buscar alternativas. O Brasil reúne população numerosa, consumo em crescimento e um público cada vez mais interessado em vinho.”

Para o CEO e proprietário da vinícola Castellani, o Brasil é visto como mercado estratégico, com consumo em crescimento e interesse cada vez maior por origem, identidade e história dos vinhos.

À frente da Vinícola Castellani, Piergiorgio Castellani avalia que o Brasil deixou de ser apenas um mercado emergente. O grupo controla cerca de mil hectares de vinhedos, produz aproximadamente 26 milhões de garrafas por ano e registra faturamento anual de 58 milhões de euros. “O país tem dimensão continental, população jovem e crescimento consistente no consumo de vinhos de maior qualidade. Há interesse crescente por origem, identidade e história”, afirma.

Apesar do cenário favorável, o empresário ressalta a necessidade de previsibilidade regulatória. Segundo ele, a harmonização de normas técnicas, clareza nos processos de importação e segurança jurídica serão determinantes para consolidar investimentos no longo prazo.

Dados do Ministério da Agricultura, em parceria com a Ideal BI Consulting, indicam que a Itália ocupa atualmente a quarta posição entre os maiores exportadores de vinhos para o Brasil, atrás de Chile, Portugal e Argentina, e à frente de França e Espanha. Entre os países europeus, aparece na segunda colocação, atrás apenas de Portugal.

Com a perspectiva de aumento nas importações, empresas brasileiras se preparam para ampliar o portfólio. A Italy’s Wine São Paulo, por exemplo, aposta em um consumidor cada vez mais informado e exigente. “O brasileiro valoriza autenticidade, história e qualidade. Nosso papel é conectar vinícolas tradicionais a esse público”, afirma o representante Claudio Adolfo.

Ronaldo Triacca e Ana Cenci, proprietários da Villa Triacca

Enquanto os rótulos italianos ganham espaço nas prateleiras brasileiras, produtores nacionais investem em outro movimento: o cultivo de uvas clássicas da Itália em solo brasileiro. No Centro-Oeste, a Villa Triacca aposta na Sangiovese, uma das castas mais emblemáticas da Toscana. Adaptada às condições do Cerrado, a uva dá origem a vinhos que respeitam a tradição italiana, mas expressam características próprias do terroir brasileiro.

“Não buscamos reproduzir a Itália. O clima, o solo e a altitude brasileiros conferem outra expressão à Sangiovese. A ideia é construir identidade”, afirma o produtor Ronaldo Triacca.

Para Fábio Selan, diretor-geral da ITALCAM – Câmara de Comércio Italiana de São Paulo, o momento é de consolidação e expansão das relações comerciais. Segundo ele, os vinhos italianos desempenham papel estratégico no Brasil, não apenas como produtos de qualidade, mas como representantes da cultura e do estilo de vida italianos.

O cenário aponta para uma relação cada vez mais estreita entre Brasil e Itália no setor vitivinícola, seja pelo aumento das exportações europeias, seja pela incorporação de castas italianas ao terroir nacional. Um movimento que nasce da geopolítica, passa pelo comércio internacional e se consolida no paladar do consumidor brasileiro.

Leia também: 12 vinhos feitos de maneira inusitada

Comentários
Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Quem Sou

Sou Etienne Carvalho, jornalista, sommelier formada pela ABSRS e pela FISAR, com qualificação nível 3 WSET. Atualmente, atuo como diretora e professora da ABS-DF e sigo me aprofundando no mundo do vinho como estudante de Enologia. Apaixonada por vinhos, viagens, leitura e escrita, criei este espaço para compartilhar minhas experiências e descobertas com quem, assim como eu, acredita que o conhecimento e a paixão tornam cada taça ainda mais especial.

Categorias

Veja Também

Jantar harmonizado da Villa Triacca no Le Jardin Bistrot

O Le Jardin Bistrot recebe, no dia 30 de abril, às 19h30, um jantar harmonizado…

Cerrado ganha espumante de Chenin Blanc da Marchese

A vinícola Marchese apresenta ao mercado seu primeiro espumante elaborado com a uva Chenin Blanc…

Garibaldi conquista quatro prêmios em concurso nacional de suco de uva

A Cooperativa Vinícola Garibaldi foi um dos destaques do inédito Concurso do Suco de Uva…

“Spirit of Brazil” une Escócia e Brasil em lançamento

Projeto inédito reúne três destilados e celebra conexões culturais entre os dois países Uma colaboração…