
No início dos anos 2000, poucos consumidores associavam o Chile a vinhos com identidade local marcada. O país era conhecido principalmente por rótulos acessíveis, produzidos em larga escala com variedades internacionais como Cabernet Sauvignon, Carmenère e Sauvignon Blanc. Mas, em uma região esquecida ao sul de Santiago, um grupo de produtores começou a mudar essa percepção. Em 2011, eles oficializaram esse esforço com a criação do VIGNO – Vignadores de Carignan –, um movimento que apostava em uma uva marginal e em vinhedos antigos para criar vinhos autênticos e expressivos.
A base dessa revolução silenciosa estava no Vale do Maule, uma das regiões vitivinícolas mais antigas do Chile. Após o devastador terremoto de 1939, o governo incentivou o plantio da Carignan no Maule com o objetivo de reforçar a produção local. A uva, de origem espanhola e presença marcante no sul da França, foi utilizada por décadas como parte de cortes de vinhos de mesa, sem protagonismo e quase sempre misturada a outras variedades. O tempo, no entanto, trabalhou a favor dessas vinhas. Com baixa irrigação e pouca intervenção, elas envelheceram em silêncio, desenvolvendo raízes profundas e gerando uvas de altíssima concentração e complexidade.

Foi só no início do século XXI que enólogos atentos passaram a perceber o valor dessas vinhas velhas. O que era antes considerado um resquício do passado passou a ser visto como um tesouro. Assim surgiu a ideia do VIGNO: criar uma identidade coletiva para os vinhos de Carignan do Maule, com base em regras claras, compromisso com a qualidade e valorização da história local. O movimento foi além do marketing. Ele estabeleceu critérios rígidos para o uso da marca: os vinhos devem ter ao menos 70% de Carignan, ser produzidos com vinhas de no mínimo 30 anos, cultivadas em sequeiro (sem irrigação artificial), envelhecer por no mínimo 24 meses (em madeira ou garrafa) e ser avaliados por uma comissão técnica antes de ganhar o selo.
Com isso, o VIGNO passou a funcionar como uma denominação de origem não oficial. Seus integrantes compartilham conhecimentos, discutem práticas enológicas e trabalham juntos para promover uma nova imagem do vinho chileno – mais ligada ao solo, à tradição e à diversidade regional. No início, os vinhos VIGNO seguiam um perfil mais potente, com uso generoso de carvalho e extração intensa. Com o tempo, o estilo evoluiu para uma abordagem mais refinada, priorizando frescor, equilíbrio e expressão do terroir. Os vinhos hoje revelam notas de frutas negras, ervas secas, especiarias e, em muitos casos, uma mineralidade que remete ao solo pedregoso da região.
O impacto do movimento foi além do campo técnico. Ele contribuiu para a revitalização econômica do Maule, uma região historicamente excluída das rotas dos vinhos premium. Pequenos produtores passaram a receber preços mais justos pelas uvas, e o mercado voltou os olhos para outras variedades antigas cultivadas na região, como a País e a Cinsault. O VIGNO mostrou que a viticultura tradicional e de pequena escala ainda tem lugar no mundo globalizado do vinho, especialmente quando aliada a práticas sustentáveis e a uma narrativa verdadeira.

Hoje, o VIGNO é reconhecido internacionalmente como exemplo de como movimentos coletivos podem impulsionar transformações duradouras. Seus vinhos estão disponíveis em lojas especializadas, plataformas online e cartas de vinhos de restaurantes que valorizam autenticidade. Entre os produtores mais destacados estão nomes como Garage Wine Co., De Martino, Gillmore, Morandé e Miguel Torres Chile. Os preços variam bastante, mas mesmo os rótulos mais acessíveis expressam a proposta do grupo.

Mais do que um selo de qualidade, o VIGNO representa uma filosofia. Ele mostra que vinhas velhas e uvas esquecidas podem ser a base para vinhos vibrantes e cheios de personalidade. Também reforça que tradição e inovação não são opostas: no caso do VIGNO, caminham lado a lado. Para quem busca vinhos com história, identidade e sentido de lugar, os Carignans do Maule são uma descoberta que vale a pena.





