
Encontro no Lago Restaurante teve a presença de Daniel Ramírez, Export Manager da Muriel Wines, e mostrou que falar de história, terroir e vinhos de guarda pode ser tudo, menos uma experiência maçante
Uma viagem por Rioja sem sair de Brasília. Essa foi a proposta do jantar harmonizado realizado no Lago Restaurante, que reuniu à mesa vinhos das Bodegas Muriel e contou com a presença de Daniel Ramírez, Export Manager da Muriel Wines. Entre os rótulos apresentados, uma raridade chamou especialmente a atenção: um Conde de los Andes branco 1983, elaborado com Viura, colocado lado a lado com uma expressão muito mais jovem da casa, da safra 2021.
Ao longo da noite, Ramírez foi muito além da apresentação técnica dos vinhos. Trouxe histórias, curiosidades sobre Rioja, detalhes sobre as uvas, vinhas, métodos de elaboração e, principalmente, sobre a filosofia de preservação de vinhos antigos da Conde de los Andes.
“Nosso objetivo não é simplesmente mostrar vinhos antigos, mas permitir que as pessoas entendam a história que existe dentro de cada garrafa. Quando abrimos uma safra com décadas de evolução, estamos compartilhando uma parte da memória de Rioja”, destacou Daniel Ramírez durante o encontro.
A apresentação poderia facilmente ter se transformado em uma longa aula. Aconteceu justamente o contrário. Foi uma noite leve, dinâmica e surpreendente, com muitas curiosidades apresentadas entre um vinho e outro e uma interação constante com os convidados. Uma forma interessante de mostrar que conhecimento e entretenimento podem e devem dividir a mesma mesa.
Diferentes expressões de Rioja na taça

A seleção permitiu conhecer de maneira bastante ampla o estilo das diferentes linhas que integram o portfólio da vinícola. Também degustamos um Ribera del Duero (um Valdecuriel 2019) produzido pelo grupo e podemos comparar as sutilezas de cada região.
Agora, os Conde de los Andes conduziram a degustação para outro patamar. São vinhos que remetem diretamente à tradição dos grandes vinhos de guarda de Rioja, com maior profundidade, complexidade e capacidade de evolução.

Nos tintos, apareceram notas de frutas vermelhas e negras, especiarias, ervas, tabaco e nuances provenientes do envelhecimento, sempre acompanhadas por boa acidez. Um destaque para o Conde de Los Andes 2005 – excepcional! Nos brancos, a Viura mostrou por que essa variedade histórica de Rioja pode produzir vinhos muito mais longevos e complexos do que muitos consumidores imaginam.
E foi justamente ela a protagonista de um dos momentos mais interessantes da noite.

Viura 1983 x 2021: duas épocas dentro da taça
Provar um Conde de los Andes Viura 1983 já seria, por si só, uma experiência especial. Poder observá-lo tendo como referência uma safra muito mais jovem, 2021, tornou a degustação ainda mais didática.

O 2021 mostrou a juventude da Viura: maior vivacidade, frescor e notas minerais, com fruta e notas cítricas mais evidentes, além de boa acidez. É um vinho que permite perceber a estrutura e ajuda a compreender de onde poderá surgir a sua complexidade com o passar dos anos.

O 1983, por outro lado, deixou todos extasiados.
Depois de mais de quatro décadas, a fruta fresca naturalmente cedeu espaço pra complexidade. Apareceram notas evoluídas, lembrando muito mel, frutos secos,cera, flores secas e nuances terciárias. A grande surpresa, entretanto, está na capacidade de o vinho ainda manter vida, equilíbrio e personalidade. E muita vida, viu? Que acidez boa!
O 2021 fala de potencial. O 1983 mostra o que esse potencial pode se tornar. Amei a experiência.
História que também se bebe
Um dos aspectos mais interessantes apresentados por Daniel Ramírez foi justamente a relação da Conde de los Andes com o tempo. As caves históricas e a conservação de safras antigas fazem parte da identidade da casa e ajudam a explicar por que abrir determinadas garrafas significa muito mais do que simplesmente degustar um vinho velho.
“O tempo não deve apagar a identidade do vinho. Nos grandes vinhos, ele acrescenta novas camadas. É isso que torna tão emocionante comparar uma safra jovem com outra que passou décadas evoluindo”, explicou Ramírez.

A noite mostrou ainda como a gastronomia pode ajudar nessa leitura. Os pratos servidos pelo Lago Restaurante acompanharam diferentes estilos e momentos dos vinhos, fazendo do jantar uma experiência que uniu conhecimento, história e prazer à mesa.
Mérito também da Wine Pass, responsável por proporcionar a experiência, representada por Rubens Pecoraro e, também de Reginaldo Vieira, da Áster distribuição , pelo trabalho de aproximar o público brasiliense de produtores e rótulos que ajudam a contar a história do vinho espanhol.

Mais do que um jantar harmonizado, foi uma noite para entender Rioja através de suas taças das expressões mais jovens aos vinhos que atravessaram décadas.

Provar uma Viura de 1983 em plena forma foi um belo lembrete: algumas das melhores histórias do vinho precisam de tempo para serem contadas.
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