
Indicada ao Prêmio Encontro Gastro Brasília na categoria Sommelier do Ano, Márcia Cruz vem consolidando seu nome no universo da enogastronomia brasiliense à frente do Le Jardin Bistrot, no Sudoeste. Empresária, servidora pública e sommelière, ela divide a sociedade da casa com o chef Tiago, seu esposo, e Marcus Vinícius, seu filho, em um projeto inspirado nos tradicionais bistrôs franceses.
Responsável pela curadoria de vinhos e pelos eventos do restaurante, Márcia construiu sua trajetória unindo estudo, experiência e paixão pelo vinho. Em entrevista, ela falou sobre o início da relação com a bebida, os desafios do setor, a construção do Le Jardin e o reconhecimento recebido pela indicação ao prêmio.
Como começou sua relação com o vinho?
A minha relação com o vinho começou há pelo menos uns 25 anos. Os primeiros vinhos que experimentei não eram de qualidade e eu pensava que não gostava de vinho. Quando tive a oportunidade de viajar para o exterior e experimentar vinhos franceses e italianos, descobri que havia um mundo a ser descoberto.
Depois veio a paixão pelo vinho. Comecei, por curiosidade, a buscar mais informações, fazer cursos e não parei mais. Sempre gostei de estudar e o mundo do vinho é ilimitado, é história, é arte.
Quando percebeu que isso poderia virar profissão?
Descobri que o vinho poderia se tornar uma profissão quando comecei a me imaginar montando uma boa carta de vinhos na cidade. Na época, apenas restaurantes grandes tinham carta de vinho e muitos bares e restaurantes menores trabalhavam apenas com cerveja.
Como não bebo outra bebida alcoólica, comecei a perceber que a insatisfação ao chegar em um restaurante sem vinho não era apenas minha, mas também de muitas pessoas. Hoje diversos estabelecimentos oferecem carta de vinhos, mas antes não era assim.
Como foi o caminho até se tornar sommelière?

O caminho até me tornar sommelière ainda está sendo construído. Comecei por curiosidade, mas, quando me tornei uma das sócias do Le Jardin Bistrot, a busca por conhecimento ficou mais direcionada.
Como responsável pelos jantares harmonizados, inicialmente com vinhos franceses, precisei estudar ainda mais. Fiz cursos como ISG, WSET, French Wine Scholar, especializações em vinhos da Provence e Bordeaux, além do curso profissional da ABS/RS, que foi o que realmente me deu segurança.
A partir daí, passei a aplicar esse conhecimento na elaboração da carta de vinhos do restaurante, pensando em cada detalhe, desde a escolha dos rótulos até as possibilidades de harmonização.
Quais são as dificuldades na hora do serviço e quais dicas você dá para melhorar?
Fazer o serviço de vinho, para quem realmente se preparou e gosta do que faz, é sempre um prazer. Quando o cliente valoriza um serviço bem feito e você tem conhecimento para realizá-lo é excelente. O problema está em treinar e aperfeiçoar o serviço da sua equipe para que ela mantenha o mesmo padrão. Conseguir manter uma boa equipe de garçons é o maior desafio. Muitas vezes fazemos o treinamento, mas há uma troca grande de funcionários e isso prejudica. A dica é não desistir, investir em estudo constante e em treinamento, pois os que se mantiverem no grupo terão experiência para ajudar a preparar os demais.
Como recebeu a indicação ao Prêmio Encontro Gastro Brasília?
Fiquei muito feliz quando soube da indicação a Sommelier do Ano no Prêmio Encontro Gastro Brasília. É uma honra estar ao lado de grandes profissionais da área, pessoas que admiro muito e que vejo como exemplo de dedicação à profissão.
Essa indicação teve um peso diferente por vir junto com tudo que foi construído no Le Jardin?
As pessoas não conseguem imaginar como é trabalhoso montar e manter um restaurante. Todos os dias passamos por desafios. As indicações ao prêmio trouxeram a satisfação de perceber que todo esse trabalho está sendo reconhecido.
Como enxerga o espaço das mulheres no universo do vinho?
As mulheres ainda têm um longo caminho para serem reconhecidas no mundo do vinho. Não é diferente quando se trata de ser sommelière. Mas sou otimista quanto ao futuro, porque vejo muitas mulheres apaixonadas por vinho, estudando, se especializando e ocupando espaços aos poucos.
O que diria para mulheres que querem entrar nesse universo?
Diria que estão no caminho certo. Basta continuar estudando e buscando oportunidades.
Como surgiu a ideia de abrir o Le Jardin?

A ideia surgiu a partir das viagens que fiz junto com o chef Tiago e com Marcus Vinícius para Paris. A França é cheia de pequenos bistrôs, com atendimento familiar e pratos feitos com muito capricho.
Todas as vezes que viajávamos juntos, buscávamos conhecer os lugares onde os franceses realmente comem, fora da rota turística. E nos surpreendíamos muito com a qualidade. Foi aí que vimos a oportunidade de trazer um pedacinho da França para Brasília.
O Le Jardin sempre foi pensado como é hoje?
O Le Jardin surgiu justamente dessa ideia de trazer um pedacinho da França para Brasília. Eu estudava francês na Aliança Francesa quando o proprietário da cafeteria resolveu passar o ponto.
Bastou ele colocar a placa na porta para eu correr atrás da oportunidade. Claro que antes conversei com meus sócios sobre a possibilidade de abraçarmos juntos esse sonho. E assim transformamos uma cafeteria em um verdadeiro bistrô francês.
O que o Le Jardin representa para você hoje?

O Le Jardin surgiu de um sonho e cada detalhe faz parte da nossa história. São nove anos de experiência e desafios. Começamos dentro de uma escola, em uma cafeteria, e fomos criando experiências gastronômicas muito bem pensadas.
Hoje temos um espaço aconchegante, espaçoso e bem localizado no Sudoeste, sempre buscando oferecer o melhor para o cliente.
Como é o treinamento da equipe?
Parte do treinamento é feito pelo Marcus Vinícius, como servir, como receber o cliente. A parte específica relacionada ao serviço de vinhos, eu faço uma vez por semana com os garçons. As aulas sobre vinhos costumo dar uma vez por mês, ou quando chega um novo membro na equipe.
Entre cartas de vinho, harmonizações e experiências gastronômicas, Márcia Cruz segue ajudando a fortalecer a cultura enogastronômica em Brasília. No Le Jardin Bistrot, o vinho aparece não apenas como bebida, mas como parte de uma experiência construída com acolhimento, estudo e dedicação diária.
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