
Em um mundo dominado por Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Malbec, provar vinhos elaborados com César Noir e Portugais Bleu é quase uma aula de ampelografia (genética das uvas) na taça. Os dois fazem parte da linha Sucesor, da Casa Donoso, no Vale do Maule, Chile. O projeto nasceu com uma proposta bem interessante: sair do perfil mais clássico da vinícola e apostar na inovação, inclusive recuperando variedades antigas e praticamente esquecidas encontradas no Maule. A linha começou a ser desenvolvida em 2012 e acabou virando uma espécie de laboratório enológico da Casa Donoso.
Não conhecia essas variedades e após degustar os vinhos fui buscar informações sobre elas no livro Wine Grapes, de Jancis Robinson, referência mundial quando o assunto é identificação e história de castas.
Sucesor Romano 2023 – César Noir
A César Noir é uma raridade originária do nordeste da Borgonha. Segundo o Wine Grapes, de Jancis Robinson, trata-se de um cruzamento natural de Pinot Noir com Argant (Gänsfüsser), hoje praticamente extinta até mesmo na França. O livro registra a existência de alguns hectares de César Noir no Maule, no Chile, onde ela é conhecida localmente como “Romano”. Ou seja, isso explica diretamente o nome do vinho Sucesor Romano.

No Chile, a história ganhou um capítulo especial: a variedade foi identificada em vinhedos da Casa Donoso em 1995 com a colaboração do ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot. A Casa Donoso acabou se tornando a primeira vinícola chilena a comercializá-la. “70% do vinho estagiou em tinajas de greda (ânforas de barro chilenas) para alcançar a máxima expressão aromática, e os restantes 30% em barricas de carvalho francês”, explicou o sommelier Eugenio Cue da importadora Del Maipo, ao apresentar o vinho.

Na taça, o Sucesor Romano 2023 me chamou atenção por um perfil mais rústico e terroso, com fruta negra mais discreta. É um vinho leve, elegante, com taninos presentes, mas bem trabalhados, e um final bem seco, que reforça essa pegada mais séria e gastronômica.
Sucesor Portugais Bleu 2020 – Portugais Bleu
Aqui a história fica ainda mais curiosa. Apesar do nome, o Wine Grapes aponta que a origem da variedade é austro-germânica, e não portuguesa. Também conhecida como Blauer Portugieser, teve importância histórica principalmente na Europa Central.
No Maule, a Casa Donoso decidiu recuperar essa uva depois de anos de pesquisa e testes. O resultado é o Sucesor Portugais Bleu, 100% da variedade, um vinho de cor intensa, com frutas negras bem marcadas, especialmente amora, corpo médio e taninos equilibrados. Também esse vinho estagiou em ânforas de barro.

Na minha percepção, este segundo vinho tem um perfil mais frutado, com um leve toque de açúcar residual mais perceptível, o que deixa ele mais acessível e direto.
Mais do que duas curiosidades, são vinhos que mostram uma vertente muito interessante do Chile atual: resgatar uvas esquecidas para contar novas histórias sobre terroir e diversidade. E talvez seja justamente isso que torne a experiência tão legal: provar algo que quase ninguém conhece.
Sem dúvida, duas preciosidades vindas do Chile, produzidas pela Casa Donoso, um projeto que vem chamando atenção e que ainda promete muito , principalmente para quem gosta de sair do óbvio.
Casa Donoso – Linha Sucesor – D.O. Valle del Maule
No Brasil, esses rótulos são trazidos pela Del Maipo Importadora.





