
A genética ajuda a explicar como surgiram as uvas de casca clara e revela que mutações, cruzamentos e seleção humana estão por trás de boa parte da diversidade encontrada nos vinhedos.
Quando se fala em uvas para a produção de vinho, é comum pensar que as variedades tintas e brancas sempre existiram separadamente. Mas a história é um pouco mais curiosa. Segundo estudos de genética da Vitis vinifera, as formas ancestrais da espécie apresentavam bagas de casca escura. As uvas brancas teriam surgido posteriormente, a partir de mutações genéticas que alteraram a produção dos pigmentos responsáveis pela coloração da casca.
O que determina a cor da uva?

A diferença está no DNA. Genes como VvMYBA1 e VvMYBA2 participam do controle da produção de antocianinas, pigmentos responsáveis pelas tonalidades vermelha, roxa e azulada encontradas nas cascas das uvas.
Em ancestrais das variedades brancas, mutações afetaram esse mecanismo. Como consequência, a produção de antocianinas na casca foi praticamente interrompida, dando origem às uvas de casca clara.
A genética também ajuda a explicar por que algumas variedades de uva aparecem em diferentes cores.
Uma mesma família, diferentes cores

Um dos exemplos mais conhecidos é o grupo Pinot. Pinot Noir, Pinot Gris e Pinot Blanc não são três variedades completamente independentes. Elas são variações clonais intimamente relacionadas, associadas a mutações ocorridas ao longo da evolução da videira.
A Garnacha apresenta uma situação semelhante, com variedades como Garnacha Tinta, Garnacha Gris e Garnacha Blanca. Essas diferenças de coloração são resultado de mutações naturais que podem ser preservadas e multiplicadas pelo homem por meio da propagação das videiras.
É um exemplo de como a evolução pode acontecer dentro do próprio vinhedo.
Mutação e cruzamento não são a mesma coisa
Embora ambos estejam relacionados à diversidade genética das uvas, mutação e cruzamento são processos diferentes.
Na mutação, uma alteração genética surge dentro de uma variedade. Já no cruzamento, duas variedades se reproduzem e dão origem a uma nova combinação genética.
Um dos exemplos mais famosos está justamente entre as uvas mais conhecidas do mundo: a Cabernet Sauvignon.
Quem são os pais da Cabernet Sauvignon?

A Cabernet Sauvignon nasceu do cruzamento entre Cabernet Franc e Sauvignon Blanc, uma uva tinta e uma branca. O parentesco foi confirmado por estudos de DNA.
O caso mostra que a história das uvas não é marcada apenas por mutações. Os cruzamentos também tiveram papel importante na formação das variedades que conhecemos atualmente.
E os híbridos?
Cruzamento e híbrido também não significam necessariamente a mesma coisa.
Quando variedades da mesma espécie, como duas Vitis vinifera, são cruzadas, trata-se normalmente de um cruzamento. Já os híbridos interespecíficos combinam material genético de espécies diferentes do gênero Vitis.
Esse tipo de combinação pode ser utilizado, entre outros objetivos, para buscar maior resistência a doenças, melhor adaptação às condições ambientais e práticas de viticultura mais sustentáveis.
No fim, por trás das milhares de variedades de uvas existentes estão mutações, cruzamentos, hibridizações e, claro, a seleção feita pelo ser humano ao longo da história.
E tudo isso ajuda a contar uma história fascinante: as uvas brancas surgiram a partir de ancestrais de casca escura.
Fonte: estudos de genética da Vitis vinifera e trabalhos sobre os genes VvMYBA1/VvMYBA2 e a determinação da cor da baga.
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